domingo, 23 de agosto de 2015

Texto Atrasado Pro Dia Mundial da Fotografia ;-)

Foto: Alessandro Dias. Casamento da Aline & Arthur
“Essa porra de Muralha da China é só isso aqui, esse bando de pedra? Já ví tudo, quero voltar pro hotel” …   foi o que disse meu querido amigo & cinegrafista genial, Pérsio Cavalcanti.  E caiu a ficha do sonho que estávamos vivendo em 2008. A viagem divisora de águas em minha vida, quando pensei “caraca, essa parada de se fazer fotografia é muito lôca”. Estávamos em Beijing para registrar os Jogos Paralímpicos daquele ano. 

Mas não escolhi ser fotógrafo. Quando criança queria ser detetive ou motorista de caminhão de lixo. A fotografia me encontrou quando servi o Exército. Não tinha ideia de algum dia me envolver nessa área. Num universo de 400 pessoas fui o que chutou que ASA se referia a valor de sensibilidade de filme quando perguntado pelo capitão da nossa companhia. E, após o treinamento básico de lama na cara e noites acampadas, segui para o setor de comunicação daquela organização militar. Havia uma vaga aberta para fotógrafo. 

O que antes era um emprego em que procurei meu sustento transformou-se em um deslumbramento. Poderia trabalhar de graça, apenas pelo espaço de estar diante de coisas que jamais tive ideia que presenciaria.

“As pessoas tem diários on-line, contam suas vidas através de imagens” Kazuo Okubo.

Rá. Foi difícil entrar pra essa profissão. Saí do exército para trabalhar pro Jorge Campos. Foi o momento de fazer merdas I N C R Í V E I S. Tomei broncas É P I C A S. O  “Seu” Jorge perseguia avidamente todas as novidades da então recentíssima e nebulosa fotografia digital. A revolução estava começando, o mundo analógico em agonia - embora se risse dos míseros 6 megapixels de nossas então "poderosas” câmeras contra os 36 da película de 35mm. O salto para questões binárias vinha cheio de dúvidas e medos. Como tudo que nos é desconhecido.  

O Luis Carlos Xavier, meu outro chefe, foi quem me deu a oportunidade de empunhar uma câmera. Foi o início da aventura que me transformou em quem sou hoje. 

Tenho um encantamento mágico pelo ofício fotográfico. É o nicho mais democrático que conheço: negros, índios ou quaisquer etnias podem ser fotógrafos. Mulheres ou as diversas formas de sexualidade podem exercer a profissão sem quaisquer preconceitos. Pessoas com deficiências, inclusive cegos, podem se tornar fotógrafos. A difusão de informação e a popularização  dos equipamentos fez com que qualquer um tivesse acesso a uma câmera. Seja em celular ou uma semi-profissional de qualidade mirabolante ( custo X benefício excelente ). Existem todos os mercados possíveis. Desde books a 80 reais com entrega na hora a casamentos monumentais em Roma com o fotógrafo feito paparazzi particular. 

“A fotografia é a chave para todas as portas do mundo” - Emilliano Capozoli.  

Conheci de forma profunda nosso Judiciário pois vivi lá dentro, pude registrar a liturgia da justiça. Amadureci minha visão de esquerda e direita quando estive no Legislativo. Percebi que entre o vermelho e o azul existem escalas quase infinitas. Através do Executivo pude viajar pelo país e conferir a grandeza continental do nosso Brasil. Ví nossa terra produzindo tudo, sustentando tudo. Agronegócio, hortifrutigranjeiros, cana de açúcar e nossas estradas na vazão de tudo isso, nossos portos carregados de riquezas a exportar pro mundo inteiro. Estive lá encarregado de levar a outros olhos o que contemplei. 

É de tirar o fôlego. 

E, além desses assuntos, tive chance de fazer uma fotografia muito especial que é a de esportes. Conheci os paralímpicos que - naquele instante - estavam a deixar de ser pessoas em processo de inclusão social para serem vistos como atletas de alto fim a carregar o país nas costas em busca de ouro, prata e bronze. 

Hoje fotografo nossos atletas olímpicos. É fascinante. 

Ainda me emociono com tudo o que aparece pela minha frente. Seja a luz do final do dia com seu toque de Midas, transformando paisagens em ouro até a união entre duas pessoas que acreditam no amor que tem um pelo outro. 

E continuo assim, na expectativa de onde a Fotografia - essa garota louca e imprevisível, que me seduz todos os dias - vai me levar. 

domingo, 21 de junho de 2015

Nossa Vida e a Mitologia

Quando a gente pensa em mitologia logo aparecem os deuses gregos com suas paixões, fúrias e poderes em pinturas e esculturas deslumbrantes. Os desafios dos heróis ajudados ou atrapalhados por seres extra-humanos.
A mitologia é pop, está em todos os lugares. Quem não lembra do clássico sessãodatardiano "Fúria de Titãs" com seus bonequinhos de stopmotion? A Disney com seus desenhos do Hércules (bonitos e positivos). Onze entre dez nerds recitam Guerra nas Estrelas como mantras existenciais (cujo cenário muda do Olimpo para mundos alienígenas mas a estrutura da história permanece igual aos contos gregos).

Tudo muito bonito. Mas se for pegar no original deixam de ser historinhas pra criança.

Seguem alguns mitos que podemos aplicar no dia a dia, hoje, ontem, amanhã e sempre. Pq os mitos são eternos e universais, explicam a alma humana através de símbolos cuja programação está em nossos mais íntimos desejos e vontades. Antes mesmo de nosso nascimento, a coisa já está lá, gravada em nosso chassi cerebral.

nota 1 de 5: sem teorias da conspiração, galerinha. É Carl Jung & Joseph Campbell & física quântica & matemática abstrata & neurologia da pesada, gente!!

nota 2 de 5: os livros reunidos na Bíblia são também bastante assustadores, pois tratam-se - assim como os compêndios mitológicos gregos, anglo-saxônicos, pré-colombianos, etc, etc - de guias de virtudes, ética e moral apresentados sob forma de histórias de dúvida, violência, destruição, inveja e tantos sentimentos que todos nós temos vergonha de assumir mas enfrentamos todos os dias.

nota 3 de 5: rá!! Exceção perene: a Dad Squarisi faz uma tradução fascinante desse universo de paletas adultas para cores infantis

Então vamos lá:

#Ulisses e a Arrogância

Ulisses é a representação do herói maduro. Idoso, que precisa usar de inteligência e estratégia pra passar pelos obstáculos. Depois que bolou o Cavalo de Tróia e venceu a guerra, se sentiu foda demais. O MÁXIMO. Tanto é que afirmou que não precisava mais dos deuses.

nota 4 de 5: os seres do Olimpo representam os poderes da natureza, as leis da física, o movimento dos astros, as dimensões existentes. Ou seja, não é legal ir de encontro às leis do universo. É como se eu quisesse, teimoso, me manter jovem para sempre. Isso não existe, serei punido - ou terei uma grande decepção - em enfrentar algo cujo poder está além de qualquer possibilidade humana: o tempo.

Poseidon, o Deus dos Mares, soube dessa malcriação do Ulisses. E deu seus pulinhos para que o retorno de Ulisses, através de seus domínios, fosse o mais "agradável" possível... he he he


#Ulisses e a Procrastinação

Com Poiseidon em seu encalço, Ulisses pegou uma onda sinistra e naufragou numa ilha onde havia a ninfa Calypso que o seduziu.
A vidinha na ilha era até bacana. Com um bosque lindo, cheio de comidas gostosas + uma garota bonita lhe paparicando, Ulisses foi ficando, ficando ficando ... e quando viu passaram-se muitos anos.

Somente quando se lembrou quem era, seu destino, sua esposa, seu filho e sua pátria que Ulisses decidiu sair daquela "zona de conforto".

Hoje temos tantas coisas divertidas - "mercado do entretenimento" - que nos tomam horas e horas e dias e dias e anos e anos de nossas vidas. Mergulhamos fundo nessas coisas. Parece bom porque um dia após o outro nos dá a ilusão da eternidade. E ninguém sabe quando vai morrer. Pode ser no mês que vem ou daqui à duas ou três horas.

Aí o Ulisses aprendeu a lição e ficou esperto pro próximo perigo, quando sabia que encontraria as sereias.

nota 5 de 5: as sereias são a representação da perfeição material. Através do canto nos encantam. Vamos como moscas em direção às lâmpadas incandescentes.

Ele se amarrou no mastro de seu navio para resistir ao canto das sereias. Sabia que iria fraquejar. Aqui o mastro significa princípios, elevação moral. A melodia das sereias pode ser dinheiro, vício ou qualquer coisa que a gente mente que é descolada e justifica como coisa boa, quando é, na verdade, uma merda que nos atrasa a vida.

#Ciclo do Rei Arthur & Feminismo

Gawain era um dos mais gatinhos da Távola Redonda e também dispunha do prestígio de ser sobrinho do Rei Arthur. Certo dia foi desafiado por Ragnel, uma bruxa horrível de feia, com uma profecia nas mãos: o reino de seu tio iria acabar. Mas havia um jeito de desfazer esse destino se

A) Ele respondesse à pergunta O QUE A MULHER + DESEJA NO MUNDO?
B) Ele se casasse com ela.

O lance foi que o cavaleiro não achou a resposta e teve que se casar com a megera. Todos no reino lamentavam o matrimônio mais estranho que haviam presenciado. Na noite de núpcias, Gawain seguiu triste para o quarto onde sua esposa repousava. Abriu a porta e teve uma surpresa: lá estava uma gatinha muito gata.

- o que aconteceu com Ragnel? perguntou Gawain se segurando em seu robe de núpcias.
- Eu sou Ragnel, disse ela. A jovem respondeu-lhe com um sorriso doce, que, como ele havia se mostrado honrado, metade do tempo ela se apresentaria com um aspecto horrível e a outra metade com aspecto de donzela. Essa é sua maldição. E depois perguntou:

- Qual você prefere para o dia e qual você quer para a noite?

Gawain pensou: "eu poderia ter uma jovem adorável durante o dia, para exibir a meus amigos e, à noite, na privacidade de meu quarto, uma bruxa espantosa. Ou ter uma bruxa de dia e uma linda mulher nos momentos íntimos".
E disse:

- Aceitei-me casar contigo pela maneira que você é. Portanto, acatarei sua decisão. Você deve escolher por si mesma.

Nesse momento - PLIM !!! - o encanto se quebrou e Ragnel seria linda de dia e de noite.

Pq o que todas as mulheres desejam é a emancipação, a soberania sobre sí.


* * *

Palestra COMO VIVER O MITO da Professora Renata Peluso, da Nova Acrópole, 20/06/2015


interpretação livre de minha parte. :-)  

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Meu Esquema de Trabalho como Fotógrafo


Essa é a configuração básica que carrego pra resolver a maioria das pautas em que trabalho. 

Carrego duas câmeras (ui, coluna!): uma com sensor em formato DX (menor) e outra com sensor full-frame (maior). A câmera DX está sempre na minha mão, com uma lente 28-200mm + um flash dedicado montado. É a câmera que uso no momento social, quando preciso de uma foto rápida. Sacar e disparar. Ou quando a sombra está me prejudicando.

(e também porque tenho uma lente 10-17mm que só funciona em sua plenitude super grande angular nesse formato de sensor. Adoro essa lente. A fotografia com lente "olho de peixe" tem se popularizado com a chegada da GoalPro)

Para a câmera full frame faço uma foto mais fina, discreta, sem flash, com luz ambiente e pouca profundidade de campo: uso uma tele 80-200mm sempre em f2.8 e uma 50mm sempre em f1.8. Adoro as fotografias produzidas por essas lentes por causa da tridimensionalidade que a abertura grande proporciona. O foco no ponto marcante da imagem e tudo o mais que é coadjuvante fica desfocado, um borrão de cores ou o bokeh difuso das luzes. 

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Um Livro Egoísta


“(...) nos demos conta de que temíamos as coisas erradas: o buraco na camada de ozônio, o derretimento das calotas polares, o vírus do oeste do Nilo, a gripe suína e as abelhas assassinas. Mas acho que aquilo que preocupa nunca é o que acontece, no final das contas. As catástrofes reais são sempre diferentes – inimagináveis, desconhecidas, impossíveis de prever.”

Nessa interessante ficção contemporânea de Karen Thompson Walker, a vida em nosso mundo está terminando por causa da desaceleração da rotação do planeta. E, em forma de diário, a protagonista nos conta os efeitos da progressão das costumeiras 24 horas em dias de mais uma semana de duração...

O fenômeno é intransponível. Resta tentar sobreviver dia a dia, entre os que tentam levar a vida de forma normal, seguindo o horário antigo e os que buscam se adaptar aos longos dias de radiação solar e as noites de duração gelada.

Nossos dramas íntimos tem a mesma importância que as piores tragédias da humanidade - principalmente quando a gente é adolescente. E o livro é escrito nesse tom, de histórias paralelas: a destruição do mundo e a destruição da infância.

“talvez tivesse começado antes da desaceleração, mas só depois fui me dar conta: minhas amizades estavam se desintegrando. Tudo estava desmoronando. Foi uma travessia difícil aquela, da infância para uma próxima vida. E, como em qualquer outra dura jornada, nem tudo sobreviveu”.

O texto é claro, direto e honesto. E egoísta: depois que comecei não consegui dar atenção às outras leituras até que “A Idade dos Milagres” estivesse concluído. Excelente livro.  

domingo, 1 de fevereiro de 2015

BATMAN & CONAN da década de 80


Não tenho televisão em casa. Embora acredite em magia & hipnotismo o que mais me assusta é a publicidade. E a tevê é uma porta para os condicionamentos mentais que as campanhas publicitárias nos induzem. Tudo muito gentil e sugestivo. São plantadas em nossas mentes sementes de insatisfatoriedade: não temos o que queremos. E se temos, tememos o dia em que podemos perder. Antes dessa descoberta/teoria da conspiração eu AMAVA com a força de todos meus poros o televisor. Ficava acordado até muito tarde pra assistir as estreias na TV aberta através da Tela Quente, sempre às segundas na Globo. Dormia antes de chegar ao final e, tempos depois, quando a continuação já era exibida nos cinemas era a vez da Sessão da Tarde reapresentar a película. Matava aula com qualquer desculpa para ver de dia o filme cortado e formatado pra caber na grade horária de forma que não interferisse no horário da próxima atração (uma minissérie importada ou hoje a eterna novelinha teen, celeiro de novos talentos do PROJAC, a sempre carioca Malhação).

Apesar disso, de vez em quando mergulho na televisão, tipo quando estou na casa de alguém. Na tarde de sábado foi impossível emergir da realidade (?) traduzida pelos diodos emissores de luz – ou LED. Fiquei preso ao sofá. Os safados do canal FX exibiram duas pérolas dos anos dourados de minha infância dos anos 80: Batman e Conan, o Destruidor.

O Batman do Tim Burton: o homem morcego de borracha contra o colorido Coringa, um “artista do crime”. Parece o velho seriado dos anos 60 com ares góticos acrescentados pelo diretor. Michael Keaton , o cara engraçado que fez o Beetlejuice (d'Os Fantasmas se Divertem) assumiu Bruce Wayne... Rá! Ainda bem que não existiam redes sociais na época. Jack Nicholson, pelo contrário, está em casa: o Coringa é mais uma carta em seu baralho de loucos (Um Estranho no Ninho, O Iluminado, Melhor é Impossível, etc). O rostinho da época, Kim Basinger atua como Vick Vale, a fotógrafa (o glamour dessa profissão empresta ainda mais charme à personagem). A trilha sonora do Prince dá uns toques de futuro do pretérito, com seu rap, guitarras e sintetizadores. Tudo se encaixa.

Conan, o Destruidor, um filme de macho: personagens rigidamente arquetípicos, cada um no seu quadrado, sem quaisquer nuances psicológicas ou tridimensionalidade. Cartoons em preto e branco. Tem o Bárbaro (forte, estúpido e prático), o Ladrão (medroso, fraco e cleptomaníaco), o Bruxo (místico, letrado e curandeiro), a Guerreira (determinada, agressiva e honrada), o Guarda-costas (protetor, fiel e preocupado) e a Virgem (inocente, intuitiva e bonita). O Mago do Mal cujos feitiços são o reflexo de sua personalidade: produzir um monstro simiesco escondido nos espelhos do ego (sua derrota é justamente a quebra de suas imagens refletidas).
Se há alguém que ofusca a interpretação (?) da montanha de músculos Arnold Schwarzenegger é Grace Jones que, com caras & bocas & urros & gritos transmite mais que mil palavras.

No final todos que acompanharam a Princesa Virgem recebem convites para integrar, em altos postos, o reino da agora Rainha Virgem (rá! Até o ladrão ganhou uma boquinha: se tornou o Bobo da Corte). Só pra contrariar, Conan recusa a oferta de desposar a Rainha. Vai embora do salão e termina o filme na imagem clássica da névoa vermelha com o bárbaro entronizado. Com a promessa que sim, ele ainda virá a se tornar rei. Grande filme.  

domingo, 18 de janeiro de 2015

Youtube no Telemóvel

Em meu primeiro contato com o computador tive a impressão que aquela máquina parecia o Deus do Velho Testamento: ele ditava uma porção de regras e não tinha nenhuma clemência. Não faz muito tempo. As telas eram basicamente televisores pesados e os teclados monstruosidades cujos comandos eram combinações herméticas como rituais de magia. Haviam os "xamãs da computação", como era o caso do meu brilhante amigo Marco Aurélio. Ele era nosso mestre pq conhecia os signos complexos de uma língua mais antiga que o pacote Windows que estávamos assimilando: programação COBOL. Marcão era um gênio e eu apenas mais um dos deslumbrados com a inclusão digital.

Acompanhávamos com grande entusiasmo as novas atualizações da companhia do Bill Gates, flertávamos com Linux (por ser underground, libertário, a antítese da computação capitalista). Acreditava que o final dessa evolução, após tantas transformações em pouquíssimo tempo, era o computador portátil, o laptop. Uma maleta que se transformava numa máquina de escrever com uma tela fina. Em que se poderia trabalhar em qualquer lugar, levar consigo seus softwares, suas músicas, tudo. O ápice da informática.

O negócio não parou poraí. Os telefones celulares foram ficando cada vez mais populares a medida que ganhavam mais transístores e o acesso à internet melhorava. São os smartphones ou "telefones inteligentes".

Pois foi mexendo hoje de manhã no meu telemóvel (que não é o melhor, muito menos iPhone) que descobri que o Youtube é + um aplicativo pré-instalado em seu sistema operacional. Ao logar com minha conta do Grande Irmão Google ele me apresentou, em forma de playlist, todos os videoclipes que curti ao longo de toda minha vida on-line. Fantástico. Coloquei em modo aleatório e apertei o play.

Olha o que rolou:

"Say That" do Toro Y Moi. Comecei a ouvir esse maluquinho pq ele se parece DE MA IS com o Megarom, um amigo que, por mais uma coincidência, tb é artista da música. Acabei gostando dos trabalhos dele e acompanho.

"Her Ghost in The Fog, Live" do Cradle of Filth. A gente levava várias madrugadas pra baixar as coisas no tempo da internet discada. "Her Ghost in The Fog", o clipe original, foi proibido na maioria das MTVs do mundo. Heavy Metal supostamente satânico com pitadas de gótico. E é claro que a gente queria saber do que se tratava!!

"Fricote" do Art Popular. "Você é meu amor/Te quero de novo/Te ensino a fricotar/Fricote do fofo/Eu vou te lambuzar/De água-de-coco/Bumbum pa ti cumbum/Fricote do fofo". Como que quem nunca foi a show algum, não comprou o disco, não ouviu em casa e, mesmo assim, sabe a letra?

RÁ! Entre um clipe e outro, uma propaganda de Curso de Hebraico. Como eles podem saber que essas coisas podem me interessar? A coisa mais bacana do mundo on-line é justamente o maior perigo: algoritmos espiões sobre tudo o que você escreve, lê e compartilha. Pra gerar a navegação mais individualizada possível. E também para criar um perfil de quem talvez você não seja (por exemplo: se eu passo horas lendo textos sobre islamismo não quer dizer que eu seja muçulmano. Ou que queira explodir alguma coisa - são conclusões precipitadas que não tem a ver com a religião que é bela como todas são. Mas os algoritmos, o FBI ou a ABIN tiram suas próprias conclusões...)

Segue a lista:

Solo Concert Tokyo 1984 - Keith Jarrett. Cara, esse cara faz umas caras muito engraçadas quando está tocando sua belíssima melodia no piano. Faz as caras que a gente faz quando tá transando. Ou seja, só se pode imaginar que a música pra ele é um ato de amor. É profundo, é dinâmico, é sentimento e são encantadas composições. Respeito e admiro.

"Give It Away" do Red Hot Chili Peppers. Esse foi o primeiro videoclipe que ví na MTV brasileira, recém inaugurada, sinal aberto em UHF lá no Rio de Janeiro. Um tapa na cara: aqueles caras super enérgicos, pintados de prata, dançando vestidos de entidades(?) em um deserto de solidão e calor. Letra anarquista, com versos tão truncados quanto é nossa (in)capacidade de interpretar arte inédita. Morávamos no Complexo do Alemão e quando tocava na TV largávamos o que que fosse que estivéssemos fazendo pra ver mais uma vez o clip daqueles doidos. O máximo de interatividade era o programa do Cazé, o Teleguiado MTV. Não tínhamos telefone então o que podíamos fazer era torcer pra que alguém pedisse "Give It Away". E hoje é diferente. Hoje a gente tem acesso a qualquer conteúdo. Na mão com um ou dois cliques. :-)

Deveria falar alguma coisa sobre os Tablets. Foram um salto maravilhoso também. Mas eles merecem um texto a parte.

:-)

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Sol. Mar. Praia. Família. E livrinhos – Recesso 2014/2015

Sempre considerei um livro uma meta a ser superada. Desde quando era criança e frequentava uma biblioteca lá na Ilha do Governador - era Cacuia ou Cocotá? Não lembro mais... - tinha como objetivo terminar toda obra que estivesse em minhas mãos.

Hoje já penso diferente: "pra que vou até o fim se o começo já é uma porcaria?"
Parece bobo mas pra mim foi revolucionário poder largar o texto a qualquer momento. São tantas opções e tanta gente boa escrevendo que realmente não vale a pena insistir em coisas ruins.

Tive essa constatação quando lí as 155 páginas de "Demoníaco", de Pandora Fairel. Como entidades antediluvianas podem ser inseguras e desorientadas como adolescentes? Porque a filha de dois dos mais poderosos demônios do inferno rejeita os pais e se torna protetora da raça humana boazinha e altaneira? Fiquei esperando a grande explicação. Talvez uma pequena pista do insight (por que lutar pelo bem se suas raízes são do mal?). E nada. Personagens rasos.

Zumbis X Unicórnios, de vários autores, ficou por menos da metade. Li apenas um ou dois contos pra nossa sobrinha, a Clarinha. Se a maior preocupação dos protagonistas é popularidade ou lutar contra o "inóspito ambiente escolar" sinto preguiça de seguir adiante com a trama.

Pelo título eu jamais leria "A Longa Marcha dos Grilos Canibais", do Fernando Reinach. Dei uma chance e achei incrível!! Não concluí ainda. São casos da ciência reescritos de forma traduzida e atrativa. Pra além de relatórios técnicos exaustivos de revistas científicas. Por exemplo: vc sabia que a morte surgiu muito depois que a vida? A morte se dá por conta da reprodução sexuada. Porque para o ser que se divide em dois, depois em quatro, em oito, em dezesseis (e poraí vai) a morte não existe. E assim foi, durante milhares de anos, na aurora do planeta Terra. Todos os assuntos do livro são permeados dessas ideias fantásticas!!

E falando em Terra, vale muito a pena o livro autobiográfico do Sebastião Salgado. Em depoimento a Isabelle Francq o fotógrafo nos conta seu trajeto particular, seus causos, sua militância por um mundo melhor. É realmente uma grande pessoa, que veio ao mundo pra fazer a diferença. Talvez por ser fã meu julgamento já esteja comprometido."Nunca me senti superior a esses homens supostamente 'primitivos'. Foi por isso que nunca tive a sensação de ser um estrangeiro indo visitá-los. Pelo contrário, descobri meus iguais e, para falar a verdade, eles me ensinaram mais do que eu a eles." Admiro muito o fotógrafo e a pessoa Sebastião Salgado.

Provavelmente por ser uma leitura paralela ao "Da Minha terra à Terra", do Salgado, achei insossas as opiniões manifestadas no "Não Conta Lá em Casa", do André Fran. Tudo bem, ele e seus amigos foram muito corajosos de viajar pros países mais complicados do planeta. E quem sou eu, sentado na minha confortável poltrona, para tirar qualquer mérito desse projeto audacioso. É, inclusive, um programa no Multishow (cujos episódios não tive oportunidade de assistir). Leitura leve. Transparecem os valores classe média alta de uma juventude carioca hedonista cujas maiores preocupações são achar cerveja e sinal wi-fi em todos os países que visitam. "A diferença está nos detalhes. Em vez de fotos com constrangidos sujeitos travestidos de personagens de desenho animado, você pode posar montado em um camelo vivinho e enfeitado para a ocasião. Em vez de camisas temáticas, você pode comprar uma autêntica burca. E o cachorro-quente, a pipoca e os sorvetes são naturalmente substituídos por litros e litros de água fresca" - no capítulo sobre o Irã. É legalzim.

And the Oscar goes to... "Castelo de Vidro", de Jeannete Walls. Uma história de enfrentamento da vida, de seguir em frente, de família maluca (como todas são). Nu e cru o ditado do Nietzsche "o que não lhe mata deixa mais forte". Superação sem pieguices. Uma relato real de uma existência com tudo pra dar errado. A cada página virada só pensava no pior que poderia acontecer. Mas a esperança e o instinto de sobrevivência estão lá. "Papai parecia determinado a se destruir, e eu tinha medo de que levasse todos nós com ele". Grande história.


domingo, 23 de novembro de 2014

INTERESTELLAR. FILMÃO. FILMASSO.

INTERESTELLAR. FILMÃO. FILMASSO.

Contém spoilers que não fazem perder a graça do filme.
Mesmo que exaustivamente destrinchado e debatido vale a pena pela exuberante viagem visual que apresenta.

Finalmente conseguimos assistir ao Interestellar, do diretor dos últimos Batmans, o Christopher Nolan. Excelente. Apogeu da produção cinematográfica de nossos dias. Amarra de forma envolvente as questões contemporâneas.

Numa primeira camada mais aparente, superficial, apresenta o drama da destruição do mundo: nosso lar de saco cheio de nossa existência humana, a nos expulsar de seu corpo. O planeta tomado de convulsão e esterilidade e a necessidade de nos pirulitar. A questão indivíduo x comunidade ligada aos sentimentos do protagonista: ele segue em direção à grande aventura pra salvar sua filha através da descoberta da viagem espacial para um planeta sadio ou é um desbravador em busca de uma nova casa para a espécie humana? Acrescentado coragem, inteligência, surpresas e traições entre os personagens. Pronto, está feito um blockbuster. Só até aqui já garantiu um sucesso de público.

E segue mais ousado. As camadas mais profundas da película são: buracos negros e distorções tempo/espaço, nossa incapacidade de enxergar além do quadridimensional (altura, largura, profundidade e tempo), questões REAIS de viagem no tempo baseadas n'A Relatividade do Albert Einstein + “Buracos de Minhoca” do Stephen Hawking (pena que só dá ir pro futuro...) e sim, ELE, o AMOR. Eles estão do outro lado da galáxia e estão discutindo a influência da gravidade e do mais nobre dos sentimentos, sobre como essas coisas nos dominam, como nos afastam ou nos atraem. Sensacional.

Interestellar é um brinde à ficção científica. Uma obra com tantas referências a tudo que já foi feito e falado sobre o futuro que o divertido passa ser montar o quebra-cabeça de pecinhas de outras obras. Tá tudo lá: os robôs inteligentes e autônomos, máquinas que vão além de executar tarefas, companheiros indispensáveis na evolução do homo sapiens, como nos contos de Isaac Asimov (seriam essas máquinas alguma coisa entre o C3PO de Star Trek e o grande irmão HAL 9000?). Homens e mulheres cuja motivação os transformam em sacerdotes da ciência, despojados de salário ou poder, como em Star Trek (e também a Dobra Espacial, está lá, Dr. Spock!!). A viagem pro futuro é o argumento principal de Planeta dos Macacos (série antiga). Citar 2001: Uma Odisséia no Espaço é levar um tapa na cara da obviedade. Interestellar seria uma refilmagem atualizada do clássico de Stanley Kubrick, isto é, o filme de ontem dirigido às perguntas de hoje, como em O Dia Em Que A Terra Parou? A cena em que o protagonista chega à 5ª dimensão tem o mesmo impacto da viagem final do astronauta de 2001. E o melhor: assistir na telona, surround, absorvendo cada nuance de cor e som.

Sempre tive inveja da audiência dos anos 60 e 70 que foi presenteada com obras que arrebataram corações (inclusive o meu!!). Interestellar me fez sentir orgulho do momento em que estou vivo. Sem nostalgia, porque tenho a impressão que o melhor está sendo produzido agora: histórias incríveis + efeitos maravilhosos. E sou testemunha de tudo isso.

domingo, 9 de novembro de 2014

A Dificuldade de Dizer Eu Te Amo - parte 2


Quando você fala "eu te amo" pra alguém é como se o carimbo de autorização à viagem ao seu coração estivesse batido no passaporte de quem ouviu.

(não é só o grande clássico "eu te amo". Pode ser um menos comprometedor "eu gosto de você" ou até mesmo um inocente "sinto saudades suas")

Ele terá seu consentimento para escancarar as portas da sua alma. Terá acesso aos seus medos, ao seu EU INFERIOR, penetrar nos seus sonhos mais profundos (bons ou ruins).

E vai poder fazer gato e sapato, sambar na sua cabeça, esculachar seu coração, esculhambar seus valores, falar pra todo mundo o quanto você é ridículo por ser assim... tão fora de moda.

Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo me quer bem
Eu sou de ninguém
Eu sou de todo mundo
E todo mundo é meu também

(será?)

Falar "eu te amo" é sempre um tiro no escuro. Qual é a reação de quem ouve? Todo mundo espera que seja correspondido. Mas... e se for surpresa (boa ou ruim?), asco, constrangimento, risos descontrolados, deboche? Rejeição?

O problema fundamental é que todos nós queremos ser amados. E amados de graça, magicamente amados, sem qualquer compromisso ou recíproca de nossa parte.

(Daí o grande sucesso do facebook, sua cultura dos LIKES, da CURTIÇÃO)

E a solução fundamental é amar. Estimular o que temos de melhor dentro de nós para transmitir ao próximo. Sem pensar que o amor se acaba. Pq quanto mais se ama, mais luz e coisas boas nascem dentro da gente.

Alguma coisa em troca? Nada. De forma natural e pura como já fomos um dia.

Dizer "Eu Te Amo" sem esperar nada do outro lado. Dizer "Eu Te amo" de forma simples. Pq só assim seremos amados.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

A Dificuldade de Dizer Eu Te Amo

Os japoneses tem uma palavra pra descrever os desenhos das sombras e luzes que são formadas pelo sol no chão, através das folhas das árvores: komorebi.

Se você almoçou e jantou com os espanhóis e depois começaram a conversar, a esse momento se dá o nome de sobremesa (não, não é a hora de comer doces!)

Nós, que herdamos esse idioma complexo e maravilhoso, o português, também temos algumas palavras só nossas. Tipo saudade: a falta de alguém que está longe.

Talvez seja uma dificuldade universal definir o sentido da palavra amor. E dizer "eu te amo". Pq não vale pra todo mundo e toda situação. Ou vale?

Amor é gostar, aprovar, querer estar junto, querer ajudar. Sem querer nada em troca.

(Ou querer algo em troca sim: ser amado no mesmo nível, receber cafuné, ganhar uma almoço, viajar junto, contar problemas, buscar compreensão, transar loucamente, etc etc etc. será?)

O enigma do amor se dá pq ele não é algo palpável. O mercado/cartão de crédito/capitalismo diz que não. Seria possível sim provar nosso amor através das coisas que conseguimos comprar pra nosso alvo de amor: joias caras, presentes luxuosos, mil prestações a cumprir para provar que o que sentimos encontra páreo na realidade existente, da matéria das coisas.

Nosso amor seria do tamanho de um cruzeiro marítimo ou de um anel de diamantes, então? Acredito que nenhum dos dois. O amor não existe e não pode ser medido ou pesado desse jeito. O amor é uma abstração magicamente relativa.

(e esse é justamente o mote de "O Mundo Não é o Bastante", 19º filme do James Bond, 007)

O quanto cada pessoa é capaz de amar? O quanto cada pessoa é capaz de receber amor? Será que conseguimos retribuir todo o amor que recebemos?

Como saber que amamos?

Você tira a pele, abre a caixa torácica. E vê o coração. Lá dentro estão as esperanças, os sonhos e os medos. Acredito que é aí que o amor está (não é o pé da letra, viu, Sr. Jack?). E talvez seja por essas coisas - conceitos, imagens de sí e do mundo, ideias e, em um sentido mais profundo de metafísica ou romantismo, a ALMA - que nos atraímos.

Existem diversas formas de amar e que também acrescentam dificuldades em dizer "eu te amo".

Eu queria dizer "eu te amo" pros meus amigos, pras pessoas que me rodeiam, por exemplo. Mas não dá. A conotação do amor é sempre da união sexual. E, mesmo nesse aspecto é bastante confuso. A gente não sabe qual a "modalidade" de amor queremos. É muito complicado:

Tem o amor que você quer, o amor que você acha que quer, o amor que você acha que quer mas não quer mais quando enfim consegue. Existe o amor que é seu contanto que você seja obediente, o amor que se preocupa por não ser o bastante, amor que tem medo de ser descoberto, o amor que teme ser julgado e descobrir-se insuficiente. Há o amor que é quase - mas não é - forte o bastante, o amor que faz você sentir que eles são melhores que você. O amor que só é bom por causa da pessoa que você é enquanto está com ele. O amor pelos animais, o amor pela natureza, o amor pelas bandeiras. O amor de mãe (aí é assunto pra uma enciclopédia inteira. Não vamos entrar nessa definição...)



É. Realmente é difícil dizer "eu te amo".